Juntas flangeadas e conexões: tipos, classes e aplicações industriais
TUBULAÇÃO
10/18/20257 min read
Introdução
As juntas flangeadas são elementos fundamentais em qualquer sistema de tubulação industrial.
Elas permitem montagem, desmontagem, inspeção e manutenção de linhas pressurizadas sem a necessidade de corte, o que reduz tempo e custo durante a operação da planta.
Segundo o Piping Handbook, “a seleção correta do flange e da junta é determinante para a estanqueidade e a integridade estrutural da conexão.”
Um pequeno erro no tipo, na classe de pressão ou na vedação pode levar a vazamentos críticos, perda de produto e riscos à segurança.
1. O que é uma junta flangeada
Uma junta flangeada é a união desmontável entre dois componentes (tubos, válvulas, equipamentos ou conexões) feita por flanges, juntas de vedação (gaskets) e parafusos (bolts).
O conjunto completo é composto por:
Dois flanges correspondentes (macho/fêmea ou face plana/raised face);
Uma junta de vedação (gasket);
Conjunto de parafusos e porcas de fixação.
O projeto e a montagem devem garantir:
Alinhamento perfeito das faces;
Torque controlado dos parafusos;
Compatibilidade química da junta com o fluido;
Pressão e temperatura dentro do rating especificado.
📘 Norma principal: ASME B16.5 – Pipe Flanges and Flanged Fittings.
2. Função e importância das juntas flangeadas
As flanges são utilizadas quando:
É necessário acesso periódico ao interior da tubulação;
Há transição entre equipamentos e linhas (bombas, trocadores, vasos);
O sistema requer testes, inspeções ou desmontagens parciais;
As condições de pressão e temperatura não permitem roscas ou uniões simples.
Elas devem resistir a:
Pressão interna e esforços externos (peso, vibração, dilatação térmica);
Tensões de montagem aplicadas pelos parafusos;
Corrosão e erosão na região da vedação.
3. Tipos de flanges segundo a ASME B16.5
A norma ASME B16.5 classifica as flanges conforme o tipo de conexão com o tubo e o tipo de face.
A seguir estão os principais tipos usados em sistemas industriais.
3.1. Welding Neck (WN) – Flange de pescoço para solda de topo
Tipo mais robusto e confiável;
Soldado com chanfro tipo butt-weld (ASME B16.25);
Indicado para altas pressões e temperaturas;
Garante excelente alinhamento e mínima turbulência interna.
📘 Aplicação: vapor, óleo, gás, alta temperatura, sistemas críticos (ASME B31.3 Category M).
3.2. Slip-On (SO) – Flange de encaixe
Tubo é inserido no flange e soldado externa e internamente;
Instalação simples e econômica;
Menor resistência à fadiga do que o tipo WN.
📘 Aplicação: linhas de utilidades e baixa pressão (água, ar comprimido).
3.3. Socket Weld (SW) – Flange de encaixe para solda de soquete
O tubo é encaixado até o fundo do flange e soldado apenas externamente;
Garante boa estanqueidade para pequenos diâmetros (≤ 2”);
Não indicado para fluidos corrosivos (possibilidade de trinca no “gap”).
📘 Aplicação: instrumentação e sistemas de pequeno diâmetro.
3.4. Lap Joint (LJ) – Flange de solta
Usado com stub-end (colar curto);
Permite rotação livre do flange para alinhamento de furos;
Ideal para materiais caros (ex.: aço inox com flange de aço carbono).
📘 Aplicação: plantas químicas e alimentícias.
3.5. Threaded (TH) – Flange roscado
Conexão por rosca NPT, sem necessidade de solda;
Ideal para baixas pressões e pequenas linhas;
Não recomendado para altas temperaturas ou vibração.
📘 Aplicação: linhas temporárias e instrumentação.
3.6. Blind (BL) – Flange cego
Fecha o fim de uma linha ou conexão;
Suporta pressão equivalente à tubulação;
Pode incluir drain plug, vent ou porta de inspeção.
📘 Aplicação: sistemas de teste e fechamento temporário.
3.7. Orifice e Spectacle Flanges
Incorporam placas de orifício para medição de vazão;
Ou possuem duas metades (aberta/fechada) para isolamento rápido.
📘 Aplicação: linhas de processo e instrumentação.
4. Tipos de face (face type)
O acabamento da face do flange determina como a vedação será feita com a junta.
Tipo de Face Características Aplicação Flat Face (FF) Superfície plana, usada com Baixa pressão, bombas juntas não metálicas de ferro fundido Raised Face (RF) Pequeno ressalto (1,6 a 6,4 mm) Padrão industrial geral que melhora a vedação Ring Type Joint (RTJ) Ranhura circular para anel Alta pressão e temperatura metálico (oval ou octogonal)temperatura Tongue & Groove (T&G) Junta guiada por encaixe Vedação precisa em macho-fêmea sistemas limpos Male & Female (M&F) Similar ao T&G, mas com Equipamentos e conexões maior área de contato especiais
📗 Normas aplicáveis: ASME B16.5 §6 e ASME B16.20 (juntas metálicas).
5. Classes de pressão (Pressure Rating)
A classe de pressão (pressure class ou rating) define a capacidade máxima de operação do flange em função da temperatura e do material.
As principais classes segundo a ASME B16.5 são:
150#, 300#, 400#, 600#, 900#, 1500#, 2500#.
Cada classe tem espessura, número e diâmetro de furos de parafusos diferentes.
Exemplo:
Um flange classe 300# suporta:
50 bar a 38 °C;
34 bar a 400 °C (aço carbono ASTM A105).
📘 Referência: ASME B16.5, Tabelas 2-1.1 a 2-3.25.
6. Materiais dos flanges e conexões
A escolha do material deve seguir a especificação da linha e o fluido transportado.
Material Norma ASTM Aplicação típica Aço carbono forjado A105 Óleo, vapor, água Aço inoxidável austenítico A182 F304 / F316 Químicos e alimentos Aço liga Cr-Mo A182 F11 / F22 Alta temperatura Duplex / Superduplex A182 F51 / F53 Água do mar, offshore Inconel / Monel / Hastelloy B564 Ácidos fortes e gases corrosivos
Os flanges devem ser forjados, nunca fundidos, para evitar porosidades e garantir resistência mecânica uniforme.
7. Juntas de vedação (gaskets)
A vedação entre as faces é realizada pela junta (gasket), que deve deformar-se ligeiramente sob o torque dos parafusos para preencher micro irregularidades.
7.1. Tipos de juntas
Tipo Material Pressão típica Norma Não metálica Fibra, PTFE, borracha Até 20 bar ASME B16.21 Semimetálica (espiralada) Aço inox + grafite/PTFE Até 250 bar ASME B16.20 Metálica (RTJ) Aço inox, Inconel, cobre Até 700 bar ASME B16.20
7.2. Seleção da junta
Temperatura e pressão de operação;
Compatibilidade química com o fluido;
Tipo de face do flange;
Requisitos de desmontagem.
📗 Dica: em plantas petroquímicas e termelétricas, as juntas espiraladas (spiral wound) são padrão devido à sua alta confiabilidade e capacidade de reutilização.
8. Parafusos e torque
A estanqueidade da junta depende diretamente do torque aplicado aos parafusos, que gera a força de compressão necessária na junta.
8.1. Tipos de parafusos
Stud bolts + porcas hexagonais: padrão ASME B16.5;
Materiais: ASTM A193 Gr. B7 (aço-liga) e A194 Gr. 2H (porca).
Para serviços severos, podem ser usados A320 L7 / A194 4 (baixa temperatura).
8.2. Torque de aperto
O torque ideal depende do diâmetro, classe e tipo de junta.
Deve ser aplicado em cruzamento simétrico (star pattern), em no mínimo três etapas:
30% do torque nominal;
60%;
100% (verificação final com torquímetro calibrado).
📘 Referência: ASME PCC-1 – “Guidelines for Bolted Flange Joint Assembly”.
9. Conexões flangeadas e componentes
Além das flanges puras, existem componentes flangeados:
Componente Função Válvulas flangeadas Permitem bloqueio ou controle de fluxo sem solda direta Filtros tipo Y e cestos Retêm partículas sólidas antes de equipamentos Spools flangeados Trechos desmontáveis para manutenção Expansores/reduções flangeadas Adaptação entre diâmetros distintos Dampers e blinds Isolamento temporário de linhas
10. Ensaios e inspeções
Os flanges e juntas devem ser verificados antes e após montagem.
Ensaio Objetivo Norma VT (Visual Test) Verificar irregularidades, rebarbas e arranhões ASME V, Art. 9 PT (Líquido penetrante) Detectar trincas na face ASME V, Art. 6 Dimensional Conferir diâmetro, furação e espessura ASME B16.5 / MSS SP-44 Teste de estanqueidade Verificar vazamentos após torque ASME B31.3 §345
O Piping Handbook recomenda o uso de torquímetros calibrados e registro de torque aplicado em sistemas críticos.
11. Instalação e alinhamento em campo
Durante a montagem:
Limpar as faces e juntas antes da instalação;
Confirmar que as faces estão paralelas (desvio máximo 1,5 mm/m);
Utilizar lubrificante apropriado (graxa molibdênio) nos parafusos;
Apertar uniformemente em sequência cruzada;
Reapertar após 24 horas de operação (em sistemas de alta pressão).
💡 Boas práticas:
Nunca reutilizar juntas deformadas e sempre substituir parafusos oxidados.
12. Principais falhas em juntas flangeadas
12.1. Vazamento por torque inadequado
Causa: torque insuficiente ou desigual;
Solução: reaperto controlado conforme ASME PCC-1.
12.2. Deformação da face do flange
Causa: excesso de torque ou montagem desalinhada;
Solução: retífica da face e reaplicação de junta nova.
12.3. Corrosão entre flanges
Causa: penetração de umidade;
Solução: aplicação de selante anticorrosivo e pintura epóxi.
12.4. Danos por vibração
Causa: ausência de suportes adequados;
Solução: instalar ancoragens e amortecedores.
📗 Estudo do Piping Handbook: até 80% dos vazamentos em plantas químicas ocorrem em juntas flangeadas mal montadas.
13. Critérios de seleção técnica
Para especificar corretamente uma junta flangeada, o engenheiro deve considerar:
Fluido: químico, tóxico, corrosivo, inflamável;
Pressão e temperatura: conforme Tabelas ASME B16.5;
Material: compatível com fluido e demais componentes;
Classe de pressão: 150# a 2500#;
Tipo de face: FF, RF, RTJ, etc.;
Tipo de junta: não metálica, espiralada ou RTJ;
Condições de manutenção: frequência e facilidade de acesso.
📘 Ferramenta útil: tabelas de equivalência entre PN e Classe ASME:
PN (ISO) Classe ASME aproximada PN 20 150# PN 50 300# PN 100 600# PN 150 900# PN 250 1500#
14. Aplicações industriais
Setor Tipo de flange Tipo de junta Observações Petroquímica WN / RTJ Espiralada / RTJ Alta temperatura e pressão Energia / Vapor WN / SW Espiralada PW HT e ensaios RT obrigatórios Água / Utilidades SO / FF Fibra ou borracha Baixa pressão Offshore / Marinha WN / Duplex RTJ / Metal Resistência à corrosão marinha Alimentícia / Lap Joint / Inox PTFE / T&G Limpeza e desmontagem fácil Farmacêutica
15. Conclusão
As juntas flangeadas são componentes críticos de segurança.
Quando corretamente selecionadas e montadas, garantem vedação confiável e manutenção facilitada.
Quando mal especificadas, tornam-se pontos de falha e de emissão.
O engenheiro projetista deve dominar:
As classes de pressão ASME;
Os materiais e faces adequados ao fluido;
E o procedimento de montagem conforme ASME PCC-1.
A confiabilidade de uma planta não depende apenas da qualidade dos tubos e válvulas, mas também da integridade das conexões — o elo entre todos os componentes.
🚀 Aprofunde-se em conexões e juntas industriais
Quer dominar a seleção, especificação e montagem de flanges e juntas conforme ASME B16.5 e PCC-1?
📘 Acesse meus livros técnicos completos e cursos práticos na Hotmart e aprenda a projetar conexões industriais com segurança e alta performance.
Transforme teoria normativa em aplicação real de engenharia de tubulações!
Engenharia
Inovação e competência em projetos de engenharia.
📞 Entre em contato e descubra como podemos agregar valor ao seu projeto!
Serviços
Parceria
anderson@rodriguesulloaengenharia.com.br
+55-11-972969688
© 2025. All rights reserved.
