Técnicas de fabricação e instalação de sistemas de tubulação
TUBULAÇÃO
10/18/20256 min read
Introdução
A fase de fabricação e instalação de sistemas de tubulação é onde o projeto ganha vida.
É nesse momento que as especificações, isométricos e cálculos se transformam em linhas reais que transportarão fluidos sob altas pressões e temperaturas.
O sucesso dessa etapa depende de três fatores principais:
Controle dimensional rigoroso;
Execução conforme códigos e normas;
Qualificação técnica da mão de obra e dos procedimentos.
O Piping Handbook ressalta:
“A qualidade de um sistema de tubulação depende diretamente da precisão na fabricação e da integridade das juntas soldadas.”
(Piping Handbook – 7th Ed., Cap. A6, McGraw-Hill).
1. Etapas do processo de fabricação e instalação
O ciclo de vida de montagem de uma tubulação industrial pode ser dividido em:
Recebimento e inspeção de materiais;
Pré-fabricação (cutting, beveling, fit-up);
Montagem e alinhamento em campo;
Soldagem e tratamento térmico;
Teste e liberação;
Pintura, isolamento e entrega final.
Cada fase possui normas específicas de controle e documentação rastreável — fundamentais para sistemas críticos como os regidos pela ASME B31.3 Process Piping.
2. Recebimento e inspeção de materiais
Antes de qualquer corte ou montagem, todos os materiais devem ser inspecionados conforme certificado de origem (MTR – Material Test Report) e requisitos de norma.
2.1. Documentos exigidos
Certificados ASTM / ASME com número de calor e lote;
Certificado de ensaio químico e mecânico;
Laudos dimensionais conforme ASME B36.10 / B36.19;
Testes NDE (RT, UT, PMI) quando aplicáveis.
2.2. Inspeção física
Verificar ovalização, empenamento e defeitos superficiais (ASTM A530);
Confirmar o schedule e classe de pressão;
Conferir compatibilidade de diâmetro e espessura entre tubos e conexões.
📘 Referência: ASME B31.3 §341.4.1 – “Examination of Materials”.
3. Pré-fabricação (oficina)
A pré-fabricação reduz custos e aumenta a qualidade, pois o ambiente de oficina permite controle térmico, ferramental adequado e inspeção constante.
As principais operações são:
3.1. Corte
Realizado por serra, plasma, oxicorte ou jato d’água;
As extremidades devem permanecer sem rebarbas, trincas ou oxidação;
Tolerância de comprimento: ±1 mm para diâmetros ≤ 4”.
3.2. Chanfro (bevel)
Padrão de 37,5° ± 2,5° conforme ASME B16.25;
Deve apresentar face de raiz (land) de 1,5–2,0 mm;
Superfície lisa, sem contaminação nem irregularidades.
3.3. Montagem de spools
As peças cortadas e chanfradas são posicionadas conforme isométricos de fabricação e soldadas parcialmente (tack weld).
Cada spool recebe um número de rastreabilidade, vinculando-o ao sistema e linha do projeto.
4. Montagem em campo
A montagem deve respeitar o layout 3D da planta, os desenhos isométricos e as condições reais de interferência.
4.1. Alinhamento
O desalinhamento máximo permitido é 1,5 mm para diâmetros até 4" e 3 mm acima disso;
Deve ser verificado com gabaritos ou ponteiras ópticas;
Em tubulações inclinadas, compensar o escoamento e drenagem.
4.2. Apoios e suportes
Devem ser instalados antes da soldagem final, conforme:
ASME B31.1 / MSS SP-58 / SP-69;
Permitem dilatação térmica e absorção de vibração;
Tipos: fixos, guias, molas, ancoragens e deslizantes.
4.3. Nivelamento e tolerâncias
Desnível máximo entre flanges opostos: 1,6 mm/m;
Deformações não podem exceder 1/8” em 10 ft (3 m).
📗 Referência: ASME B31.3 §335 – “Assembly and Erection”.
5. Processos de soldagem
A soldagem é o ponto mais crítico da instalação.
Ela deve seguir procedimentos qualificados (WPS/PQR) conforme ASME Section IX, e os soldadores devem possuir certificação individual (WPQ).
5.1. Tipos de solda mais comuns
Processo Norma Aplicação SMAW (Eletrodo revestido) ASME IX / AWS D1.1 Montagens em campo e reparos GTAW (TIG) ASME IX / AWS A5.18 Inoxidáveis e aços-liga finos GMAW (MIG/MAG) ASME IX Pré-fabricação em oficina SAW (Arco submerso) ASME IX Juntas de grandes diâmetros Orbital TIG ASME IX Linhas sanitárias e nucleares
5.2. Preparação e limpeza
Remover óleos, graxas e ferrugem das extremidades;
Usar escovas de aço inoxidável para inox;
Garantir folga de raiz de 1,6 mm ± 0,4 mm.
5.3. Interpass e temperatura de pré-aquecimento
Controlar a temperatura de interpass com termopar;
Aços carbono: 100–150 °C;
Aços-liga: 200–350 °C;
Aços inoxidáveis: evitar superaquecimento (>180 °C).
6. Tratamento térmico pós-soldagem (PWHT)
O PWHT (Post Weld Heat Treatment) é aplicado para:
Reduzir tensões residuais;
Restaurar ductilidade;
Evitar trincas por hidrogênio.
Parâmetros típicos:
Material Temperatura (°C) Tempo mínimo ASTM A106 Gr. B 600 ± 25 1 h / 25 mm esp. A335 P22 700 ± 25 2 h / 25 mm esp. A312 316L Não aplicável —
📘 Referência: ASME B31.3 §331.1.1 e Tabela 331.1.1.
O aquecimento pode ser realizado por resistência elétrica, forno ou mantas cerâmicas, sempre monitorado por termopares e registradores calibrados.
7. Ensaios não destrutivos (NDE)
Após a soldagem e PWHT, realizam-se os ensaios para comprovar integridade da junta.
Ensaio Objetivo Norma de referência VT (Visual Test) Verificar irregularidades superficiais ASME V, Art. 9 PT (Líquido Penetrante) Detectar trincas e poros ASME V, Art. 6 MT (Partículas Magnéticas) Trincas superficiais em ferrosos ASME V, Art. 7 RT (Radiografia) Falhas internas (poros, inclusões) ASME V, Art. 2 UT (Ultrassom) Espessura e descontinuidades internas ASME V, Art. 5
A extensão dos ensaios depende da categoria de fluido (ASME B31.3 §341.3):
Categoria D (baixa pressão): inspeção visual;
Categoria M (tóxico) ou alta pressão: 100% RT ou UT.
8. Teste hidrostático e pneumático
Após aprovação das soldas e montagem, a linha é submetida a teste de estanqueidade.
8.1. Teste hidrostático
Pressão de teste = 1,5 × pressão de projeto;
Manter por no mínimo 10 minutos;
Usar água limpa e filtrada, com drenagem controlada.
8.2. Teste pneumático
Usado quando o fluido não pode ser água;
Pressão = 1,1 × pressão de projeto;
Fluido: ar seco ou nitrogênio;
Maior risco → requer barreiras e distanciamento.
📗 Norma: ASME B31.3 §345 – “Testing”.
9. Limpeza e secagem interna
Após o teste, as linhas devem ser limpas conforme o serviço:
Ar comprimido / vapor: para remover detritos;
Lavagem química: para linhas de óleo e produtos químicos;
Pickling e passivação: para inox (ácido nítrico + fluorídrico);
Secagem por ar quente / nitrogênio: para linhas de gás.
O Piping Handbook enfatiza que qualquer resíduo pode gerar corrosão acelerada ou entupimento de instrumentos, reduzindo a vida útil da linha.
10. Pintura e isolamento
A pintura protege a tubulação contra corrosão atmosférica e serve como identificação visual de serviço.
10.1. Pintura industrial
Primer epóxi + acabamento poliuretano;
Espessura total mínima: 200 µm (DFT);
Cores conforme ABNT NBR 6493 ou ANSI A13.1 (identificação de fluidos).
10.2. Isolamento térmico
Calor: lã de rocha, fibra cerâmica, sílica microporosa;
Frio: espuma elastomérica ou poliuretano expandido;
Revestimentos externos em alumínio ou aço galvanizado.
11. Documentação e rastreabilidade
Todo o processo deve ser documentado e arquivado, garantindo rastreabilidade total do sistema.
11.1. Documentos típicos de “Data Book”:
Certificados de materiais (MTRs);
Mapas de solda e relatórios de ensaio;
PWHT records;
Test records (hidro, pneu);
Relatórios de pintura e isolamento;
As-built final e isométricos revisados.
📘 Norma base: ASME B31.3 §345.4 e NBIC Part 3 (para inspeção final).
12. Boas práticas de montagem
Não soldar sob chuva ou vento forte;
Proteger o interior do tubo de poeira e detritos;
Evitar uso de esmerilhadeiras em inox com discos contaminados;
Marcação com canetas ou etiquetas, nunca com riscadores metálicos;
Realizar pré-aquecimento uniforme e monitorado.
Em plantas críticas (nucleares, petroquímicas, farmacêuticas), o não cumprimento dessas boas práticas pode gerar não conformidades severas e retrabalho custoso.
13. Exemplo prático – Fabricação de um spool de 6” Sch 80, 300#
Etapas:
Corte do tubo ASTM A106 Gr. B – 600 mm;
Bevel 37,5° conforme ASME B16.25;
Montagem com 2 conexões 90° LR, ASTM A234 WPB;
Soldagem GTAW + SMAW com filler E7018;
PWHT a 600 °C por 1h;
RT 100% da junta;
Pintura epóxi 2 camadas;
Teste hidrostático a 22,5 bar.
Resultado: spool liberado conforme ASME B31.3 Category Normal Fluid, com documentação rastreável e aprovação de QA/QC.
14. Segurança durante a instalação
A montagem de piping envolve riscos elétricos, térmicos e ergonômicos.
Normas de referência: NR-10, NR-13, NR-33, NR-35.
Recomendações:
Áreas sinalizadas e isoladas durante testes;
Equipamentos de içamento com inspeção válida;
EPI obrigatório (máscara, luvas, óculos, capacete);
Aterramento de equipamentos de solda;
Inspeção visual de cilindros de gás e reguladores.
A segurança deve ser integrada ao planejamento da obra, e não um item corretivo.
15. Conclusão
A fabricação e instalação de tubulações industriais exigem precisão técnica, controle de qualidade e conformidade normativa.
Cada corte, solda ou ensaio é um elo na cadeia da integridade estrutural.
O engenheiro de piping atua como o guardião da rastreabilidade e da segurança, garantindo que a tubulação cumpra não apenas as pressões do projeto, mas também as exigências de confiabilidade que o ambiente industrial demanda.
Um sistema bem fabricado e montado é aquele que opera por décadas sem vazamentos, sem trincas e com total previsibilidade — resultado direto da disciplina técnica e da aplicação rigorosa das normas ASME.
Domine a fabricação e instalação conforme normas ASME
Quer aprender a aplicar na prática as normas ASME B31.3 e Section IX em fabricação e montagem de tubulações industriais?
📘 Acesse meus livros técnicos e cursos na Hotmart e aprenda passo a passo desde o corte, chanfro e soldagem até o teste hidrostático e entrega final.
Torne-se um engenheiro de tubulação completo e pronto para liderar projetos industriais de alta performance.
Engenharia
Inovação e competência em projetos de engenharia.
📞 Entre em contato e descubra como podemos agregar valor ao seu projeto!
Serviços
Parceria
anderson@rodriguesulloaengenharia.com.br
+55-11-972969688
© 2025. All rights reserved.
